DICA DE LEITURA – LIVRO INTELIGENTE E DELICIOSO DE LER – TRADUZ NUMA LINGUAGEM SIMPLES E DIDÁTICA UMA TEMA INTERESSANTE E COMPLEXO


Para ilustrar este post escolhi a obra de arte, a pintura Scull de 1981 de Basquiat, um pintor nascido em Nova York.

A história deste brilhante pintor é no mínimo curiosa – aos três anos já desenhava caricaturas e rabiscava esboços de personagens de programas infantis de TV.

Aos seis anos a coisa que mais adorava era visitar o Museu de Arte Moderna de Nova York, de onde já tinha até carteirinha de sócio mirim.

Porém foi uma tragédia que o aproximou ainda mais da arte – aos sete anos após ser atropelado teve seu baço dilacerado e precisou ficar algum tempo internado para ser submetido a cirurgia. Para consolá-lo, a mãe deu ao filho de presente um livro de anatomia – Gray´s Anatomy que influenciou a sua arte para sempre, ajudando-a a se especializar em pinturas de corpos e detalhes de anatomia.

Perceba um detalhe sutil da arte de Basquiat – ele geralmente retrata seus quadros com a cor negra pintada em meio ao caos.

Infelizmente ele morreu nos Estados Unidos aos 27 anos.

Eu achei que ilustrar este post com seu quadro, seria uma homenagem a um ser humano que conseguia ser genial com todos os seus problemas.


A minha dica de livro de livro de hoje vai para :

“A colher que desaparece” (e um trecho que fala da revolução da eletrônica(ou a guerra entre o Germânio e o Silício)

Neste sensacional livro – aprendemos que a vida é química pura.

O corpo humano inteiro externa e internamente é química e a vida toda, todos os objetos, seres e coisas existentes na natureza são química pura.

Seu título, a colher que desaparece é uma referência à uma colher quando colocada no chá quente, se derrete.

A colher é feita do elemento químico Gálio, elemento 31 da tabela periódica-metal que tem a estranha propriedade de passar para o estado líquido acima de 29 graus, temperatura inferior à de qualquer cafezinho.

Um truque muito legal é o de servir café para seus convidados e mexer o seu café com uma colher de gálio e come-la logo em seguida para espanto de todos.

O autor vai nos dando uma explicação sobre os elementos da tabela periódica sob uma perspectiva histórica e lógica – ele nos ensina a ler a tabela periódica de forma simples e inteligente, sem precisarmos saber profundamente de química.

Um exemplo que eu dou é o do capitulo 2 quando ele nos apresenta os elementos químicos carbono, silício e germânio. Vejam na tabela periódica mostrada acima como eles se posicionam – lendo a tabela de cima para baixo onde o Si e o Ge estão destacados em laranja, logo abaixo do C do Carbono.

A sua didática para explicar química é simplesmente interessante, pois ele batizou esta coluna da tabela como a coluna da eletrônica e como podemos ver em sua explicação os elementos desta coluna são responsáveis por tudo que existe de eletrônica no mundo de hoje.

Para exemplificar, sem reproduzir o livro inteiro, vou dar um exemplo de como ele conta a história destes dois elementos – o Silício e o Germânio.

Silício, para quem nos lembra as empresas de informática, eletrônica, tecnologia e computação criadas e localizadas no vale do Silício(o nome não é por acaso).

Ele conta a história deste dois elementos químicos e acusa o Germânio de ser um pobre elemento sem sorte.

Ele diz isto porque hoje nós usamos o silício em todos os nossos computadores, em microchips, em carros e em calculadoras.

Semicondutores de silício puseram o homem na lua e são os grandes responsáveis pela internet.

Portanto o Silício é o rei dos elementos químicos no campo da eletrônica e o Germânio é considerado um zé ninguém.(rs)

Mas ele conta que se as coisas tivessem sido diferentes 60 anos atrás, hoje poderíamos estar falando do Vale do Germânio e não do Silício, no norte da Califórnia. Vejam por que :

A indústria moderna de semicondutores começou em 1945 nos laboratórios da Bell de Nova Jersey.Bill Shockley, físico e engenheiro eletrônico, estava tentando construir um pequeno amplificador de Silício para substituir válvulas à vácuo nos antigos computadores de grande porte. Os engenheiros odiavam as válvulas, pois seus bulbos de vidro comprido eram desajeitados, frágeis e se superaqueciam facilmente..

Shockley queria fazer com as válvulas a vácuo o mesmo que Edison havia feito com as velas, e sabia que os elementos semicondutores eram a resposta: só eles poderiam atingir o equilíbrio que os engenheiros desejavam para fazer com que um número suficiente de elétrons passasse por um circuito.

Mas Shockley era mais visionário do que engenheiro e seu amplificador de Silício nunca amplificou nada(vejam só que maldade eletrônica com o cara).Frustrado ele passou a tarefa para dois subalternos J.Bardeen e W.Brattain.Juntos estes dois engenheiros determinaram que o problema era que o silício era quebradiço demais e difícil de ser purificado para trabalhar como amplificador.Eles também concluíram que o Germânio conduzia eletricidade mais facilmente do que o Silício.

Usando o Germânio os dois conseguiram construir o primeiro amplificador em estado sólido em dezembro de 1947 e o batizaram de transistor.

Mas Schockley acabou assumindo o crédito pela invenção e afastando seus fiéis escudeiros por desavenças e intrigas.(Schockley achava que o crédito deveria ser só seu, vejam só).

Por razões de intrigas técnicas e comerciais, muitos engenheiros teimavam em desenvolver equipamentos usando o Silício como componente principal, dizendo que apesar de conduzir melhor a eletricidade o Germânio gerava um calor indesejado, fazendo com que os transistores baseados em Germânio funcionassem mal à temperaturas altas.

E comercialmente apelavam para uma característica do Silício(o principal componente da areia) alegando que ele era mais barato do que lixo.

A guerra entre os defensores do Germânio e do Silício continuou forte naqueles tempos, com os cientistas permanecendo fieis ao Germânio e os comerciantes insistindo em fantasiar sobre o silício(era briga de negócio contra negócio para ganhar dinheiro)

De repente, durante um evento comercial de semicondutores naquele ano, um engenheiro atrevido do Texas levantou-se e depois de um discurso sombrio sobre a inviabilidade dos transistores de Silício, anunciou surpreendentemente que tinha um destes no bolso.

Perguntou se a platéia queria ver uma demonstração e após ouvir um sonoro sim – conectou um toca discos movido a Germânio a alto-falantes externos e, de uma forma bem medieval, mergulhou as entranhas do aparelho num recipiente de óleo fervente.Como esperado, o aparelho parou de funcionar.

Depois de recolher a fiação ele retirou o transistor de germânio(pois com ele o rádio não falava mais depois daquele mergulho) e colocou seu transistor de silício e mais uma vez mergulhou tudo no óleo quente.

A música continuou a tocar, surpreendentemente.Naquele momento uma multidão de vendedores frenéticos correu para os telefones públicos para anunciar que o Germânio tinha caído em desgraça. Foi a partir daí que o Silício se consolidou como rei da eletrônica e da informática.

Pare sorte de Bardeen(o auxiliar que Schocley havia dispensado por ciúme técnico) sua parte na história teve um final feliz, pois seu trabalho com semicondutores se provou importante para o desenvolvimento da eletrônica e ele acabou dividindo com Schockley o prêmio Nobel de Física de 1956.

Barden ouviu a notícia de sua premiação pelo rádio(ironicamente movido à Silício).

Moral da história – depois do Germânio ter feito todo o trabalho de abrir as portas às descobertas que levaram ao avanço fenomenal da eletrônica, foi o Silício que levou a fama e virou ícone, banindo o germânio para o lado sombrio da tabela periódica.

Fantástico, não acham… Vejam como um fato muda a história – se não fosse aquele lance do sujeito mergulhar o rádio em óleo quente com o transistor de germânio e na volta não conseguir fazer com que ele funcionasse impressionou a todos da época, principalmente quando ele mergulhou o mesmo rádio com o transistor de silício e ao pescá-lo de volta maravilhou a todos fazendo-o funcionar normalmente.

Se não fosse por este lance, hoje poderíamos conhecer o vale do Germânio e nossos equipamentos eletrônicos poderiam ser todos baseados em Germânio e não em Silício

Por isto que o livro vale a pena, esta repleto de historinhas didáticas nos ajudando a entender o mundo em que vimos através do prisma da Química.


Para encerrar este post escolhi como trilha sonora uma música que tem muita química com o assunto :

Do quimicamente sugestivo álbum “Carbono” com misturas que levam toques de viola, afro jazz,  salsa e até frevo e rock.

Álbum do genial cantor Lenine que resolveu unir dois assuntos no qual tem muita experiência = química e música.

Segundo o próprio cantor, seu trabalho é definido pela alotropia do elemento carbono numa analogia da sua música com a propriedade do carbono de gerar várias substâncias diferentes quando misturado.

Sobre Mauro Condé [ MaLuCo:) ] 2689 Articles
Nascido em Belo Horizonte, Mauro Lúcio Condé carrega uma bagagem profissional de muito prestígio. De simples operário, Condé chegou à diretoria da General Eletric e também passou por grandes empresas como EDS e GEVISA, mas consagrou de vez sua carreira no Citibank, do qual foi Diretor Executivo de Qualidade e depois como executivo do Banco Itaú e Telefônica. As mais de quatro décadas de experiências levaram Mauro Condé a abrir sua própria empresa de consultoria e ministrar palestras no Brasil e no mundo.
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